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EXPANSÃO SUL | Capítulo 4 - Quando as Portas se Abriram ao Mundo

Written by Lionesa | May 21, 2026 10:53:44 AM

2017 mudou muita coisa à minha volta.

Durante anos, vi o Porto crescer devagar, quase sem dar por isso. Mas houve um momento em que a região começou verdadeiramente a abrir-se ao mundo. As ruas enchiam-se de novas línguas, os aeroportos traziam cada vez mais gente de fora e as empresas internacionais começaram finalmente a olhar para esta região como um lugar onde valia a pena investir, crescer e construir futuro.

E, de certa forma, eu já estava à espera delas.

Ao longo dos anos anteriores, tinha vindo a transformar-me silenciosamente. Os antigos espaços industriais tinham dado lugar a escritórios, salas de reunião e ambientes mais flexíveis. Ainda existiam armazéns e operações logísticas, mas começava a existir também outra coisa: uma nova energia, muito mais ligada à criatividade, à tecnologia e à inovação.

Foi nessa altura que comecei a receber empresas nacionais e internacionais de setores completamente diferentes. Tecnologia. Engenharia. Consultoria. Serviços. Indústria. Inovação. Pela primeira vez em muitos anos, voltava a sentir aquela sensação de movimento constante que conhecera nos tempos da fábrica.

Foi também por esta altura que comecei a acolher empresas que viriam a marcar profundamente a minha identidade e a forma como o mundo passou a olhar para mim. Nomes como Farfetch, COFCO, Vestas ou Oracle começaram a instalar-se dentro dos meus edifícios, trazendo consigo equipas internacionais, novas formas de trabalhar e uma visão muito mais global do futuro. Cada nova empresa acrescentava uma nova camada àquilo em que me estava a tornar. Os antigos sons industriais davam agora lugar ao ruído constante dos teclados, às chamadas em diferentes fusos horários, às reuniões improvisadas nos corredores e às conversas em inglês, francês, espanhol ou italiano que começavam a misturar-se naturalmente com o português das equipas locais.

Havia equipas de tecnologia lado a lado com engenharia, inovação, indústria e serviços especializados. E, pouco a pouco, comecei a deixar de ser apenas um espaço empresarial no norte de Portugal para me transformar num ecossistema onde diferentes culturas, áreas de conhecimento e formas de pensar passaram a coexistir diariamente.

Lembro-me da Sofia, uma das primeiras programadoras a trabalhar aqui para uma empresa internacional. Chegava cedo, quase sempre de headphones nos ouvidos, e gostava de se sentar perto das janelas industriais porque dizia que “os escritórios novos parecem todos iguais, mas este lugar tem memória.”

Também me lembro do Miguel, engenheiro de produto, que um dia comentou durante um almoço:

“É estranho pensar que estamos a desenvolver tecnologia de futuro num lugar onde antes se fazia tecido.”

Mas talvez não fosse assim tão estranho.

Porque, no fundo, a lógica permanecia a mesma. Durante décadas, aqui produziram-se tecidos que ligavam mercados, empresas e pessoas. Agora começavam a produzir-se ideias, inovação, tecnologia e conhecimento. A matéria-prima tinha mudado, mas continuava a existir criação, colaboração e movimento.

Foi também nesta altura que comecei verdadeiramente a sentir-me como um campus.

As pessoas deixaram de vir apenas trabalhar e ir embora ao final do dia. Ficavam para almoçar juntas, conheciam-se nos corredores, cruzavam-se nos cafés, partilhavam ideias entre reuniões e criavam relações improváveis entre empresas completamente diferentes. Pela primeira vez, comecei a perceber que aquilo que me diferenciava não eram apenas os edifícios ou a localização. Era aquilo que acontecia entre as pessoas dentro deles.

Lembro-me da Inês, recém-chegada de Erasmus, que entrou aqui para o seu primeiro emprego e que um dia trouxe os pais a conhecer o campus. Enquanto caminhava entre os edifícios, ouvi-a dizer:

“Isto não parece um centro empresarial. Parece uma pequena cidade.”

E talvez tenha sido exatamente nesse momento que percebi aquilo em que me estava a tornar.

Porque eu deixava de competir apenas por espaço. Outros lugares também tinham escritórios, salas e estacionamento. Mas poucos conseguiam juntar património industrial, empresas globais, talento internacional e uma verdadeira sensação de comunidade no mesmo lugar.

O crescimento acelerou naturalmente. Novas empresas chegavam todos os meses, os estacionamentos enchiam-se logo pela manhã e as luzes permaneciam acesas até mais tarde. Os corredores voltaram a ganhar vida e, pouco a pouco, comecei novamente a ouvir aquele som constante de movimento que durante anos tinha desaparecido de dentro de mim.

Mas desta vez havia uma diferença importante.

A geração que agora atravessava os meus portões procurava mais do que um emprego. Procurava flexibilidade, propósito, bem-estar, criatividade e um lugar onde fosse possível sentir pertença.

E foi aí que percebi que o verdadeiro desafio do meu futuro já não seria apenas crescer.

Seria criar um lugar onde as pessoas quisessem permanecer.