25.05.2026 - 2:12PM

EXPANSÃO SUL | Capítulo 5 - Quando as Pessoas Mudaram Tudo

Durante muito tempo, as empresas procuraram-me pela localização, pelos acessos, pela dimensão dos espaços e pela capacidade de adaptação que tinha para oferecer. Durante anos, isso pareceu suficiente. O trabalho acontecia dentro dos escritórios, as equipas encontravam-se todos os dias naturalmente e quase ninguém questionava verdadeiramente o papel dos espaços empresariais.
Mas depois o mundo parou.
De repente, os corredores voltaram a ficar silenciosos. Os estacionamentos esvaziaram-se, as reuniões passaram para ecrãs e as pessoas começaram a trabalhar a partir de casa, espalhadas por cidades, apartamentos e fusos horários diferentes. Pela primeira vez desde a minha transformação, senti novamente aquela estranha sensação de pausa. Não era o silêncio pesado do abandono que conhecera anos antes, mas era um silêncio cheio de perguntas.
Porque, de um momento para o outro, as pessoas começaram a questionar tudo aquilo que durante décadas parecia garantido. Questionaram horários, rotinas, deslocações, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e, acima de tudo, começaram a fazer uma pergunta que mudaria para sempre o futuro dos escritórios:
Porque é que as pessoas precisam de vir ao escritório?
Durante meses ouvi essa pergunta repetida vezes sem conta. Em chamadas feitas em salas quase vazias. Em conversas entre gestores que tentavam perceber como seria o futuro. Em equipas que regressavam aos poucos, ainda sem saber exatamente como voltariam a trabalhar.
E foi então que comecei a perceber algo importante.
As pessoas já não procuravam apenas um lugar para trabalhar. Procuravam um lugar onde se sentissem bem. Um lugar onde existisse equilíbrio, pertença, conveniência, ligação humana e qualidade de vida.
Lembro-me da Carolina, designer de produto, que numa conversa ao final do dia comentou enquanto caminhava pelo campus:
"Se é para sair de casa, o escritório tem de me dar mais do que uma secretária."
Também me lembro do André, que trabalhou remotamente durante meses e que, no primeiro evento a que voltou aqui dentro, disse quase sem pensar:
"O que tinha mais saudades nem era do trabalho. Era das pessoas."
E talvez tenha sido precisamente aí que tudo começou a mudar.
Porque percebi que aquilo que fazia as pessoas regressar não eram apenas salas modernas, reuniões presenciais ou políticas híbridas. O que realmente procuravam era sentir que pertenciam a alguma coisa maior. Procuravam experiências. Procuravam comunidade. Procuravam um lugar vivo.
Foi então que comecei a refinar verdadeiramente a minha visão.
Os espaços começaram novamente a transformar-se. Surgiram mais restaurantes, mais zonas de convívio, mais esplanadas, mais eventos, mais cultura, mais experiências e mais momentos pensados para aproximar pessoas. Os corredores deixaram de ser apenas locais de passagem e começaram a tornar-se pontos de encontro. O almoço passou a ser também networking. Os jardins começaram a receber reuniões improvisadas. E o campus começou finalmente a viver muito para além do horário de trabalho.
Mas a maior mudança aconteceu na forma como comecei a pensar a sustentabilidade humana.
Foi nessa altura que nasceu a Lionesa Happiness Pyramid.
Pela primeira vez, comecei a estruturar uma visão onde o bem-estar deixava de ser apenas uma consequência para passar a ser uma prioridade estratégica. A ideia era criar um ecossistema onde talento, inovação, criatividade e sustentabilidade conseguissem coexistir de forma natural.
Os Collegiate Spaces nasceram da inspiração nos ecossistemas universitários, criando espaços mais colaborativos, mais fluidos e menos hierárquicos. Ambientes onde trabalhar, conviver e criar aconteciam quase sem fronteiras. 
Lembro-me da Joana, recém-chegada a uma multinacional tecnológica, que entrou pela primeira vez num destes espaços e comentou:
"Isto parece mais um campus universitário do que um escritório."
E era exatamente essa a intenção.
O Design Thinking trouxe depois uma preocupação muito mais humana com a experiência dentro dos espaços. Já não bastava criar escritórios funcionais. Era preciso criar ambientes onde as pessoas se sentissem confortáveis, inspiradas e emocionalmente bem. As empresas começaram a desenhar os seus espaços à volta das equipas, das suas necessidades e daquilo que as fazia trabalhar melhor.
Os Green Spaces ganharam também um papel central dentro do campus. Os jardins cresceram, os espaços exteriores tornaram-se locais de pausa e a natureza passou a integrar o quotidiano de quem aqui trabalha. As pessoas começaram a fazer reuniões ao ar livre, a caminhar entre edifícios e a encontrar, no contacto com o exterior, um equilíbrio que durante muito tempo esteve ausente da vida profissional.
Lembro-me do Tiago, developer, que um dia comentou durante uma caminhada:
"Há dias em que resolvo mais problemas numa volta pelo jardim do que fechado numa sala."
Mas a sustentabilidade humana não se constrói apenas através dos espaços. Constrói-se também através daquilo que nos inspira.
Foi por isso que a arte e a cultura começaram a ocupar um lugar cada vez mais importante dentro de mim. A Open Air Gallery transformou paredes em telas e corredores em percursos de descoberta. Exposições, instalações artísticas, concertos, conversas e experiências culturais começaram a fazer parte da vida quotidiana das pessoas que aqui trabalham. Pouco a pouco, a criatividade deixou de viver apenas dentro das empresas para passar a existir também nos espaços que as rodeavam.
Lembro-me da Marta, gestora de projeto, parar um dia em frente a um mural recém-inaugurado e dizer:
"É estranho. Vim para uma reunião e acabei a ficar aqui a olhar para uma obra de arte."
E talvez fosse exatamente essa a intenção.
Porque comecei a perceber que a inovação não nasce apenas da tecnologia. Nasce também da curiosidade, da criatividade e da capacidade de olhar para o mundo de formas diferentes.
No topo desta visão surgiu depois o Lionesa Business Club. Mais do que um programa de atividades, tornou-se o coração da comunidade que começava a crescer dentro de mim. Foi através dele que empresas que antes viviam lado a lado passaram verdadeiramente a conhecer-se. Surgiram eventos, sunsets, torneios desportivos, workshops, experiências gastronómicas, iniciativas solidárias e momentos de partilha que aproximaram milhares de pessoas de empresas completamente diferentes.
Lembro-me do Ricardo, que trabalhava numa tecnológica instalada aqui há apenas alguns meses, comentar durante um sunset:
"Cheguei sem conhecer ninguém. Hoje sinto que faço parte de uma comunidade."
E talvez tenha sido precisamente aí que percebi aquilo que estava verdadeiramente a construir.
Porque empresas ocupam edifícios.
Mas são as pessoas que constroem comunidades.
E foi precisamente nessa altura que comecei a perceber uma coisa ainda mais importante.
Durante anos, tinha concentrado os meus esforços dentro dos edifícios. Melhorar espaços. Atrair empresas. Criar experiências. Construir comunidade.
Mas quanto mais observava as pessoas, mais compreendia que a felicidade no trabalho não começava quando atravessavam os meus portões.
Começava muito antes.
Começava no percurso para o trabalho. Na facilidade com que se deslocavam. Na relação que tinham com a cidade. No contacto com a natureza. Nas experiências culturais que viviam. Na forma como conseguiam equilibrar produtividade e qualidade de vida.
E foi então que percebi que a transformação não podia acontecer apenas dentro de mim.
Precisava de acontecer também à minha volta.
Porque um verdadeiro ecossistema não termina onde acabam os edifícios. Expande-se para o território que o rodeia.
Durante demasiado tempo, esta zona viveu afastada dos grandes movimentos da cidade. Apesar de tudo aquilo que começava a acontecer aqui dentro, Leça do Balio continuava muitas vezes a ser vista apenas como uma antiga zona industrial, distante das dinâmicas culturais e urbanas do Porto.
Mas eu sabia que o futuro não passava apenas por trazer empresas para aqui.
Passava por voltar a ligar este território às pessoas.
Depois de 2017, começaram a surgir novas ligações de transporte público que aproximaram esta zona da cidade e alteraram profundamente a forma como as pessoas passaram a experienciar o território. Mais tarde, a reativação da Linha de Leixões trouxe novamente movimento a um percurso que durante décadas tinha permanecido adormecido. Trabalhar aqui deixava lentamente de significar distância ou isolamento.
Lembro-me da Beatriz, recém-chegada a uma multinacional tecnológica, comentar durante um almoço:
"Antes parecia que isto ficava fora de tudo. Agora sinto que finalmente passou a fazer parte da cidade."
E talvez tenha sido exatamente isso que começou a acontecer.
Porque mais do que criar acessos, começávamos a criar proximidade.
Ao mesmo tempo, começámos também a olhar de outra forma para aquilo que sempre existiu à nossa volta. O rio, os caminhos, os espaços verdes, a paisagem e a própria identidade do território começaram finalmente a fazer parte da visão do futuro que queríamos construir.
Entre 2021 e 2022, o Corredor Verde do Leça começou a ganhar nova vida. O rio deixou de ser apenas um elemento escondido da paisagem para passar novamente a fazer parte do quotidiano das pessoas. As caminhadas começaram a substituir algumas pausas de café, as bicicletas passaram a cruzar-se com reuniões improvisadas ao ar livre e a natureza começou a integrar-se na experiência diária de quem aqui trabalha.
Mas a transformação do território não aconteceu apenas através da mobilidade ou da natureza.
Aconteceu também através da cultura.
As paredes começaram lentamente a contar histórias. A Open Air Gallery transformou muros, fachadas e percursos em espaços de criatividade e encontro. Pessoas que nunca tinham vindo aqui começaram a visitar esta zona pela arte. Outras descobriram-na enquanto caminhavam para o trabalho.
E pouco a pouco comecei a perceber que já não atraía apenas empresas.
Começava também a atrair pessoas.
Mas talvez nenhum símbolo represente melhor esta transformação do que o Mosteiro de Leça do Balio.
Durante séculos, aquele lugar serviu como ponto de encontro de gerações. Muito antes de existirem escritórios, empresas ou campus empresariais, já o Mosteiro fazia parte da vida desta região. Guardava histórias, memórias e uma identidade que ajudou a moldar o território ao longo de centenas de anos.
Talvez por isso tenha feito tanto sentido voltar a ligá-lo às pessoas.
Em 2024, com a abertura da casa da Fundação Livraria Lello, aquele património milenar ganhou uma nova vida. A literatura, o pensamento, a cultura, as exposições e os encontros voltaram a ocupar um lugar que sempre teve como missão aproximar pessoas.
Lembro-me de ouvir alguém dizer durante um evento ao final da tarde:
"É raro encontrar um lugar onde passado e futuro convivam desta forma."
E talvez essa frase explique exatamente aquilo em que me estava a tornar.
Porque expandir a Lionesa nunca significou apenas construir mais edifícios.
Significou criar ligações.
Ligações entre empresas e pessoas. Entre trabalho e qualidade de vida. Entre cultura e inovação. Entre património e futuro. Entre o campus e o território.
E foi nesse momento que deixei de ser apenas um business hub.
Passei a tornar-me um destino.